NOTÍCIAS

28/10/2019 13:42h
Geral

Dificuldades para diagnóstico e tratamento são desafios das pessoas com doenças crônicas

Dificuldades para diagnóstico e tratamento são desafios das pessoas com doenças crônicas

A dor, as limitações, os problemas de saúde dos pacientes com doenças crônicas são transformados em luta para obter acesso ao tratamento. Há ainda, a batalha para superar preconceitos, barreiras sociais e tentar ampliar o acesso de informações sobre os sintomas para facilitar o diagnóstico das doenças. Essas dificuldades foram relatadas por representantes de entidades, pacientes e seus familiares durante Audiência Pública na Câmara Municipal nesta sexta-feira (25). O debate foi proposto pelo vereador Fritz, da Comissão Permanente de Saúde da Casa de Leis, composta ainda pelos vereadores Dr. Lívio (presidente), Enfermeira Cida Amaral (vice), Dr. Wilson Sami e Veterinário Francisco. 

O vereador Fritz salientou a importância da Audiência para conhecer as dificuldades enfrentadas pelas pessoas com doenças crônicas e promover os encaminhamentos necessários para auxiliar nas melhorias no sistema. “Vejo dois pontos cruciais nessa Audiência para quem precisa do serviço público de saúde: acessibilidade e maior qualificação da equipe multidisciplinar de saúde da família. Estamos ampliando o acesso em algumas unidades. Uma das estratégias é o Telesaúde, mas há dificuldade em acessar na unidade. Normalmente, o servidor precisa ter a qualificação no horário de trabalho”, afirmou. 

A vereadora Enfermeira Cida Amaral afirmou que “é muito difícil lidar com a dor do outro” e reforçou a importância da atenção primária. “A doença crônica um dia foi doença aguda. Se tivéssemos menos diabéticos, menos hipertensos não teríamos tantos casos de hemodiálise, por exemplo. A nossa atenção primária precisa funcionar na íntegra. Se a atenção primária funcionasse, nossa alta complexidade talvez estivesse melhor”. 

O vereador Dr. Wilson Sami também vê a atenção básica como solução. “Na faculdade, tive seis semestres de saúde coletiva, uma base importante não aplicada na saúde pública. Enquanto não melhorarmos a atenção básica vamos continuar com vários casos de diabéticos e hipertensos. A equipe multidisciplinar tem que ter nutricionista, ver a realidade da família, a nutrição da família, a higiene, a limpeza nos cômodos”, afirmou. Exercício e melhorar hábitos alimentares, na sua opinião, podem ajudar a reduzir várias doenças.

A presidente da Associação Beneficente dos Renais Crônicos, Cida Arroyo, detalhou a dificuldade enfrentada pelas pessoas que precisam da hemodiálise, número que tem aumentado nos últimos anos. “A partir de 30 de outubro, uma das clínicas já não terá como receber mais pacientes do SUS. As demais não têm como suportar número de pacientes. A gente trata de vidas. A doença não é considerada terminal, pode-se viver até 25 anos em hemodiálise se tiver tratamento adequado”, afirmou. 

Hoje são 2 milhões de pessoas no Brasil portadores de doenças renais crônicas. “Temos que incentivar a saúde básica, através da prevenção”, afirmou, recordando que os pacientes hipertenso e diabéticos representam 60% dos casos que evoluem para renais crônicos. 

Josineth de Oliveira Pereira, representando a Associação Nacional de Fibromiálgicos e Doenças Correlacionadas (Anfibro), falou sobre as dores crônicas provocadas pela fibromialgia. “A gente sofre também porque a invisibilidade da doença traz a discriminação, principalmente porque pessoas olham e dizem: o que ela tem? Tão saudável e vive reclamando de dor. Não temos deformidade, mas a doença é dolorosa e incapacitante. Estamos buscando visibilidade para essa causa. Não tem como mensurar a dor do outro, tem como respeitar e acreditar”, disse. Ela acrescentou que o diagnóstico pode levar de 5 a 10 anos. “A pessoa acaba tendo muitos transtornos de vida: desemprego, desconfiança, família que não acredita e falta de tratamento adequado”, disse.

A luta por essa aceitação e compreensão das dificuldades também faz parte da vida dos ostomizados, conforme Lana Maria Flores da Costa, que representa a Associação dos Ostomizados de Mato Grosso do Sul. O ostomizado precisa evacuar e urinar utilizando uma bolsa em decorrência de abertura cirúrgica realizada no abdômen, por conta de uma doença do intestino, acidente ou câncer. Além disso, há a luta por itens essenciais. “Sou ostomizada há 20 anos por conta de câncer e sou usuária definitiva da bolsa. Temos muita discussão para termos bolsas gratuitas, pois o material é importado e o custo é alto”, afirmou. Cada bolsa custa cerca de R$ 70. Portaria permite ceder de 10 a 30 por mês, mas a quantidade é insuficiente. 

Ainda, durante oito meses, os ostomizados ficaram sem fornecimento de bolsas no Estado. “Tivemos perda de direitos de assistência e saúde por definições do Governo Federal. No Estado, conseguimos por meio do Ministério Público reverter a situação. Até dezembro temos material garantido”, afirmou. 

Pelo Conselho Municipal de Saúde de Campo Grande, Maria Auxiliadora Ribeiro Villalba Fortunato, falou de algumas dificuldades enfrentadas pelos pacientes. “Fui paciente em tratamento de câncer de mama. A pessoa ainda tem dificuldade imensa de conseguir o tratamento. O paciente precisa fazer radioterapia, mas tem aparelho quebrado, várias situações. Se não nos dermos as mãos, nos unirmos, não vamos a lugar algum”, reforçou. 

As famílias que enfrentam barreiras para tratamento na rede pública também cobram melhorias. Laís Berrocal, contou sobre as dificuldades enfrentadas para chegar ao diagnóstico de doença celíaca, causada por reação ao glúten, em dois de seus três filhos. O mais novo, ainda bebê, regurgitava bastante e a medicação não fazia efeito. “A ingestão do glúten em pessoas com doença celíaca destrói o intestino. Íamos no pediatra, mas demorou para descobrir o problema”, disse. Na filha o diagnóstico veio apenas aos 16 anos, quando já estava em grau alto. Hoje, aos 23 anos, ela enfrenta ainda outros problemas de saúde. “A doença celíaca ainda é pouco conhecida na rede. O diagnóstico dela é tardio. Imagino quantas pessoas não estão sofrendo com isso porque a base não descobre. Precisa mais atenção a essas doenças crônicas”, reforçou Laís. 

A técnica de enfermagem Solange do Prado Lins Viana, tem cuidados com os dois netos autistas, a filha com problema na medula e o marido renal crônico. “Por causa dessas doenças enfrentamos várias dificuldades, inclusive financeira. A rede não dispõe de medicação para autistas. Gasto mil reais com medicação controlada. Não acho justo os autistas serem ignorados dessa forma. Ninguém fez balanço do que eu ganho e o que eu gasto. Meu salário seria bom se eu não tivesse tantas patologias dentro da minha casa, mas não recebo auxílio”, mencionou sobre a falta de assistência do Poder Público. 

Providências 

A médica da família, Leika Geniole, mencionou a importância de algumas estruturações na rede de saúde, citando ainda a capacitação dos médicos com o Telesaúde.  “Temos vários estrangulamentos na rede renal, nos ostomizados, e estamos procurando melhorar isso, construindo com atenção básica e buscando caminhos para melhorar resultados”, disse, salientando sobre a formação para aperfeiçoar os diagnósticos. “Investimos ainda em residência de família porque o médico tem condições de prevenir várias doenças para oportunizar diagnóstico precoce e oportuno”, salientou. 

O vereador Fritz comprometeu-se a agendar reunião com o secretário municipal de Saúde, José Mauro de Castro Pinto Filho, referente ao orçamento de clínica de hemodiálise, diante da denúncia de que a programação orçamentária encerra-se no fim do mês. Ainda, ele salientou a qualificação de profissionais da saúde para criar grupo de trabalho, com discussão de protocolos na atenção primária para diagnóstico precoce. “Se o paciente procurou unidade 15 vezes com dor precisa direcionar”. Ainda, há necessidade de revisão na fila para consultas. “Em relação às instituições também precisamos dar mais visibilidade ao trabalho de vocês”, disse. 

 

Por Milena Crestani (Câmara Municipal de Campo Grande)

Compartilhe Agora!